14.10.14

22.59

Se choro às vezes, são sequiosas as lágrimas que me corroem os poros e reflectem a alma em cores quentes. Choro porque já não se me assoma à memória a sensação de ter o teu torso lasso sobre o meu corpo puro e miserável na falta do pouco que me davas. Choro porque o cheiro de ti, dessa pele que te guarda, vagueia ainda nas gavetas da minha roupa de dezembro, e quando lavar as malhas do nosso amor num dia frio, perder-se-à para sempre. Choro, porque te perco aos poucos todos os dias, e não saberei recordar essas partes de ti em breve. Choro porque já não te sinto, porque há muito que não te sentia, porque me vives em poemas mas não há poesia que te traga de volta, nem prosa, nem amor. Matam-me os tempos felizes que já lá vão, enquanto aguardo a morte factual no caos que se tornou esta míngua de ti. 


Image from Tumblr

7.10.14


O porém deste meio-amor, 
é que eu continuo a amar de coração inteiro
porque nunca me ensinaram a amar às metades
ou a crescer um coração novo e capaz.

Nunca fui um todo, mas até ti, 
nunca tinha sido restos.

Se no dia em que deixei que me beijasses 
selámos um contrato de homicídio,
então talvez tenha concordado com este fim
e todo este tempo tenha estado à espera que me 
destroçasses.

Não sujes as mãos.
Não deixes que caia sangue na carpete.

E se a atrocidade tardar, não me dês tempo para chorar, 
ou a prerrogativa da última palavra,
que de ti quero tudo menos o adeus e 
a demora.

Lá longe sou feliz. 
Aqui carrego o espólio paquidérmico
deste quase-amor dentro do peito em sangue
e ainda assim, continuo vazia.

É outono. Não podia ser de outra maneira.

4.10.14

Das coisas que sei:

1. A saudade dói-me mais em português. Talvez seja por isso que a ti não te custa tanto. Devia ter aprendido mais contigo. Devia ter prestado mais atenção às palavras que me pronunciavas em francês em vez de me perder no narcótico movimento dos teus lábios e na vontade que tinha de os ter nos meus.

2. Dentro de sete anos os nossos corpos terão renovado todas as células que nos compõe e seremos nós, sendo outros. Um tu e um eu cujas peles nunca se tocaram. E parece-me tudo tão triste e tão catártico sem esse resto de ti em mim. Perder-te, perco-te aos poucos. Perder-te-ei durante os sete anos que se seguem. Perco-te assim, humildemente, porque não te sei perder de outra forma.

3. Falta de amor pela cama doeu-me sempre mais sob a taciturnidade da noite. Mas isso era antes de ti. Agora as madrugadas e manhãs pesam-me mais. O sono já não cura. Era suposto doer mais à noite, mas esta manhã o relógio marcava oito horas quando me deixei desmoronar. Eram oito da manhã e os lençóis estavam frios e o meu corpo mendigava pelo teu e eu não sei o que fazer comigo em manhãs assim. Eram oito da manhã quando me apercebi que, se calhar, era amor. E eu nunca to disse. Não creio que tivesses gostado de o ouvir. Eu teria gostado de o dizer.