Se choro às vezes, são sequiosas as lágrimas que me corroem os poros e reflectem a alma em cores quentes. Choro porque já não se me assoma à memória a sensação de ter o teu torso lasso sobre o meu corpo puro e miserável na falta do pouco que me davas. Choro porque o cheiro de ti, dessa pele que te guarda, vagueia ainda nas gavetas da minha roupa de dezembro, e quando lavar as malhas do nosso amor num dia frio, perder-se-à para sempre. Choro, porque te perco aos poucos todos os dias, e não saberei recordar essas partes de ti em breve. Choro porque já não te sinto, porque há muito que não te sentia, porque me vives em poemas mas não há poesia que te traga de volta, nem prosa, nem amor. Matam-me os tempos felizes que já lá vão, enquanto aguardo a morte factual no caos que se tornou esta míngua de ti.
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