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21.12
Quis dar-te o mundo aos bocadinhos, trazias já os bolsos cheios. "Crimes destes acontecem todos os dias, é por isso que o mundo é um lugar feio às vezes", penso enquanto preparo o luto e aceito revoltada as noites frias que me esperam. O que o amor dá, o amor tira, e este cantinho do peito em que costumava guardar-te é agora uma casa vazia onde as memórias sujam o papel de parede e o pó se acumula no lugar exacto em que partilhámos a cama. A chuva há-de fazer eco aqui quando o inverno chegar. Dói mais à noite. Perder-te em silêncio e devagarinho dói sempre mais à noite. Penso em ti até que me pese demais pensar, e ainda aí, penso mais um pouco. Mãos. As tuas mãos fazem-me falta. Essas mãos eram amor - escrevi-lhes odes. Essas mãos que me procuravam e me conheciam o corpo, esboçaram um adeus ténue, dissimulado e desajeitado e magoaram-me o coração. Essas mãos magoam o que um dia cuidaram. Cometem crimes sem saber.
Já não há flores nem constelações. Tenho o coração ermo.
O mundo está cheio de crimes, já não há lugar para o amor.
