30.8.14


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21.12

Quis dar-te o mundo aos bocadinhos, trazias já os bolsos cheios. "Crimes destes acontecem todos os dias, é por isso que o mundo é um lugar feio às vezes", penso enquanto preparo o luto e aceito revoltada as noites frias que me esperam. O que o amor dá, o amor tira, e este cantinho do peito em que costumava guardar-te é agora uma casa vazia onde as memórias sujam o papel de parede e o pó se acumula no lugar exacto em que partilhámos a cama. A chuva há-de fazer eco aqui quando o inverno chegar. Dói mais à noite. Perder-te em silêncio e devagarinho dói sempre mais à noite. Penso em ti até que me pese demais pensar, e ainda aí, penso mais um pouco. Mãos. As tuas mãos fazem-me falta. Essas mãos eram amor - escrevi-lhes odes. Essas mãos que me procuravam e me conheciam o corpo, esboçaram um adeus ténue, dissimulado e desajeitado e magoaram-me o coração. Essas mãos magoam o que um dia cuidaram. Cometem crimes sem saber. 
Já não há flores nem constelações. Tenho o coração ermo. 
O mundo está cheio de crimes, já não há lugar para o amor.


28.8.14

1.31

As sementes do teu afecto, podia eu chorar-lhes lágrimas de saudade, regá-las com o desespero dos dias vazios de ti, e elas continuariam sem florescer. Há coisas das quais gosto pouco, e uma delas é afogamentos em amor. Pensei que me jorrasse amor do peito, descubro que me nasce e entope os pulmões. Não sei amar sem ser à bruta. Quero os teus beijinhos de nicotina - nunca me matarão tanto quanto a falta deles. O meu único crime de afecto foi ter colhido esses amores-perfeitos cedo demais. Cremei dores passadas nas pontas dos cigarros que fumas. Assumi-me curada. Acreditei que tu e eu éramos uma soma certa. Ainda acredito. Tenho tanto amor por ti e não sei se o queres. Não sei o que fazer com ele.

21.8.14

17.27

Tu e eu somos um universo em expansão. Entre os dias que nos acolhem existem o breu da distância e fenómenos que ninguém entende, ninguém explica. Quem nos estuda de longe, não nos sabe. Crescemos e crescemos e criamos buracos negros e coisas maravilhosas sem intenção. O vácuo é absoluto - vácuo e luz, e estrelas e amor. 
E depois há dias tão escuros e silenciosos. Dias frios e ausentes. Dias assim fazem-me crer que o universo em expansão também se magoa às vezes. Há dias em que as constelações se enleiam, os astros desalinham. Às vezes, há uma estrela que morre. O universo explode por vezes, outras implode. E nós, nós seguimos-lhe os passos até que nos doam as pernas e o coração. Não nos queixamos porque sabemos - há dias maus até para as coisas bonitas.