22.5.14

#70

Há qualquer coisa em ti que me aquece o coração. E o que quer que seja, dura e oferece conforto até quando te enleias nas horas mais cheias dos dias que correm apressados e te perco por lá durante dias. Já o disse e repito-o: não sei o que é o amor. Não o entendo. Não há logística, nem fórmulas, nem protótipos. Mas quando passo dias sem te ver e me afogo em saudades, repouso a mão no peito e sinto que, ainda assim, não há vácuo - e é aí - que entendo que o amor pode ser isto. Oferecer estabilidade e segurança. Compreender e aceitar, e gostar. Gostar tanto. Gostar à bruta, mas com delicadeza, e gostar de ti por gostares de mim, reconhecendo que também eu me gosto, porque se nos gostarmos os dois, o amor não pesa tanto. Talvez o amor seja simples e quente, afinal. Simples porque escolhemos não complicar, e quente o suficiente para nos aquecer sem queimar. Sim. O amor pode muito bem ser isto.

18.5.14

#69

Há palavras que são para a alma o que uma bala é para o corpo, e há palavras que são quentes, doces e nos fazem bem, como mel. Há pessoas que nos doem. São como armas: têm ar sob pressão nos pulmões e um gatilho na garganta, e estão carregadas. A pólvora destila-se-lhes da língua e crava-se nos na carne. 
E há pessoas que nos curam. Que nos recebem de braços abertos e nos cedem um quarto a um canto do coração e não cobram renda. Há pessoas que merecem o universo, mas ele é tão grande que não lhes cabe nas mãos, e por isso damos-lhos aos bocadinhos e sentamos-nos em silêncio a vê-las achar que não o merecem, porque não sabem o valor que têm. Há pessoas assim, e tê-las, tê-las é carregar na palma da mão a cura para os dias difíceis e o monopólio da ternura.

17.5.14


Lovers - Marcel Castenmiller 



Das coisas que gosto em ti: 

Fazes sentido em mim. Fazes-me gostar de segundas-feiras e viver os domingos mais intensamente. De repente, não há olhos mais bonitos do que os castanhos. Cinquenta tons diferentes de verde ou azul são bonitos, mas não são castanho. Não são os teus. Os teus são calmos e de confiança, e há uma ternura tão doce nesse olhar que esconde a loucura saudável que te consome. Tocaste com carinho e cuidado em partes de mim a que as tuas mãos nunca chegariam, através de paciência e atenção. E sou tua até aos ossos, se me quiseres. Gosto tanto de ti que me torno nisto: uma escritora de fim de semana. Não gosto do que escrevo porque não é de qualidade. Não é literário. Mas gosto de ti, e do teu riso em prestações e do teu toque. Se o teu cheiro tivesse uma cor seria lavanda, porque me lembra o aroma morno e confortável de um fim de tarde de verão. E é tão bom quando repouso a minha cabeça sempre cheia e inquieta na curvatura do teu pescoço, porque parece que nos moldaram, não um para o outro, mas um no outro. Escrevo mal porque estou demasiado feliz para me preocupar com isso. Não há palavras que cheguem para ti. Não há metáforas que te traduzam. Não há uma maneira poética de dizer que sinto galáxias em expansão dentro das costelas quando me tocas. Não há como descrever a minha vontade de passar horas e horas a conduzir sem destino num volvo antigo que funciona a sonhos a ouvir-te falar sobre nada. Que seja sempre assim. Que as segundas continuem a saber tão bem como as sextas. E que juntos reinventemos o teorema do amor.