17.5.14


Lovers - Marcel Castenmiller 



Das coisas que gosto em ti: 

Fazes sentido em mim. Fazes-me gostar de segundas-feiras e viver os domingos mais intensamente. De repente, não há olhos mais bonitos do que os castanhos. Cinquenta tons diferentes de verde ou azul são bonitos, mas não são castanho. Não são os teus. Os teus são calmos e de confiança, e há uma ternura tão doce nesse olhar que esconde a loucura saudável que te consome. Tocaste com carinho e cuidado em partes de mim a que as tuas mãos nunca chegariam, através de paciência e atenção. E sou tua até aos ossos, se me quiseres. Gosto tanto de ti que me torno nisto: uma escritora de fim de semana. Não gosto do que escrevo porque não é de qualidade. Não é literário. Mas gosto de ti, e do teu riso em prestações e do teu toque. Se o teu cheiro tivesse uma cor seria lavanda, porque me lembra o aroma morno e confortável de um fim de tarde de verão. E é tão bom quando repouso a minha cabeça sempre cheia e inquieta na curvatura do teu pescoço, porque parece que nos moldaram, não um para o outro, mas um no outro. Escrevo mal porque estou demasiado feliz para me preocupar com isso. Não há palavras que cheguem para ti. Não há metáforas que te traduzam. Não há uma maneira poética de dizer que sinto galáxias em expansão dentro das costelas quando me tocas. Não há como descrever a minha vontade de passar horas e horas a conduzir sem destino num volvo antigo que funciona a sonhos a ouvir-te falar sobre nada. Que seja sempre assim. Que as segundas continuem a saber tão bem como as sextas. E que juntos reinventemos o teorema do amor.


8.5.14

13.59

Há sal que nos queima as feridas. Na tua pele repousa o sal que me queima a garganta quando te beijo os lábios logo após o oceano te ter beijado o corpo. Beijar-te é, portanto, uma catarse. É curar feridas que não existem ainda, é queimar por prazer, atingindo o supra-sumo da purificação num gesto tão cru e primário. Deitei-me a considerar a hipótese de que o mundo poderia ser curado com o teu amor, e acreditei. Soubesses tu o bem que me fazes, e que nos teus lábios jaz a salvação de tudo. 

26.4.14


21.39

La poésie 
Há palavras debaixo da nossa pele 
Que rimam quando os nossos corpos se tocam,
E estações de desejo que me incendeiam a alma
Quando os teus lábios me queimam o corpo.
Gosto mais de ti do que de metáforas,
E cartografar-te-ia o corpo apenas para ter
Um motivo para me perder em ti uma e outra vez.
Há tanta coisa que eu não sei
Como o que é o amor,
Qual o tamanho do universo, 
E se o tempo existe porque alguém inventou o relógio
Ou se o relógio existe porque alguém inventou o tempo,
Mas quando o frio da madrugada me filtra o corpo
E eu acordo para procurar calor em ti,
Compreendo que os nossos corpos se entendem tão bem 
Como as nossas almas.
São quatro da manhã e eu planto beijinhos no teu pescoço,
E penso que sejam sementes de amor, 
Porque a arte que germina dos nossos corpos logo após
Não poderia ser fruto de outra coisa.
Não nos sei os detalhes, somos para mim como o universo que desconheço:
Infinito e inaudito, e carregamos galáxias na ponta dos dedos.
Mas sei que há ternura e concupiscência em nós,
Que o meu coração já não me pesa, 
As minhas mãos já não estão frias,
E não precisamos ser poetas para criar poesia.