18.2.14


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23.02

Há dias em que nos basta uma estrada vazia que nos leva em segredo e um carro que funciona a sonhos. 
Por cima de nós, nas nuvens, tecem-se furacões com a fúria com que o meu coração bombeia e me faz dançar o sangue nas veias, e há-de chover, mas não para já. Quando nos achamos no local suposto, encostamos. Não temos pressa. O mundo está calmo aqui, e é bonito. Faz-nos companhia e ouve-nos rir encostados ao capot. Gosta de nós. Deixei tudo o que me pesa nos primeiros quilómetros de asfalto: acredito que sou livre e, por momentos, sou. Ser é tão fácil aqui. Tão leve. Podíamos construir cidades de papel e pintá-las com cores que não existem, se assim quiséssemos. A alma está-me na ponta dos dedos e eu não sinto o tempo. Não sei dizer se estamos sob o céu das seis da manhã ou da tarde, e não quero ir para casa.

Não fui poeta, nessa noite. Fui parte do poema.


12.2.14

#65

Comecei por querer-te aos bocadinhos, sem pressa. 
E tão rapidamente te quis por inteiro.
22.38

Trago um furacão ao peito e nunca aprendi a silencia-lo. Acordo um dia e descubro que outro alguém habita os teus pensamentos e a tua cama. Dizem que o que não nos mata torna-nos mais fortes - como é errado acreditar que é sempre assim. O que não nos mata também nos mantém acordados às quatro da manhã e humedece-nos a vida, alimenta-nos os medos. Eu e tu fumámos o amor que nos ligava. Querer-te foi exaustivo. Escrevi-te poesia amarga, nociva. Releio-a quando te quero matar em mim. A noite acolhe a mágoa. Faz-lhe a cama com lençóis caros, mas não cheiram a novo: cheiram como teu corpo. E o que nos dói às quatro da manhã continua a doer às quatro da tarde, porque o tempo não existe, mas esta dor sim. O tempo inventá-mo-lo nós para medir o tamanho de uma dor. Mas há dores sem tamanho, e mundos tão maravilhosos perdidos em números primos que te prendem lá longe, e na minha falta de jeito para amar e deixar que me amem, e em garrafas de whiskey que te fizeram lembrar de mim à hora marcada quando eu escrevia para esquecer. Conta-me histórias. Fala-me de destruição. Somos mestres nessa arte que é destruir. Mas não me contes segredos que eu já não quero carregar comigo. Ocupei o vazio com o desinteresse aparente: não tenho mais espaço para segredos. Fecho os olhos. É esta a cor do medo? - pergunto. Perdi-me. Perdi-me em caminhos que nunca pisei e culpo a necessidade sufocante de ti que me corrompeu o corpo, em tempos. Quebrei costelas para criar espaço para ti, junto ao meu coração e guardei-te por cá enquanto pude, porque sempre acreditei que tínhamos potencial para ser algo maravilhoso. Seriamos outros. Seriamos tudo: o mundo caber-nos-ia nas mãos. Duas versões potencialmente melhoradas que a vida fermentou e preservou para nós apenas. Tu envergarias um azul mais límpido nesse olhar, tão diferente das tempestades que carregas agora, e eu traria um coração saudável, capaz. Traria flores ao peito em vez de furacões. Seriamos certos então, plenos. Não sei se foi amor. Se foi, foi bonito, mas diluiu-se. Já não temos dezasseis anos, já não nos questionamos sobre a vida: vivê-mo-la. Um dia de cada vez até que não haja mais dia nenhum para viver. As armas mais perigosas não têm gatilho: têm sangue nas veias e pensamentos tóxicos espelhados num olhar vazio. 
Tudo em ti cresce - dúvidas, medos, vícios, erros, desgostos. Roças-me os ossos partidos agora, e é uma dor tão humana. Demorei a aceitar, mas hoje sei:

não cabes mais em mim.



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(porque nunca te disse adeus: temos 16 anos outra vez e uma sabedoria docemente ignorante no olhar. 
não conhecemos o amor ainda, mas vamos conhecer um dia. eu, pelo menos, vou.)