8.2.14

A ti, mais uma vez, porque às vezes a chuva lá fora faz chover cá dentro:

Sou terrível com inícios. Queria pedir-te desculpa pelo Inverno das minhas palavras. Sou-te fria porque me roubaste o calor do corpo quando nos perdemos em jogos e ironias. Não me custa ver-te desistir de tentar. Eu desisti há muito tempo. Não te odeio e não te amo. Só não te suporto. Não te sei perdoar. Desculpa-me por isso também. Fizeste de mim alguém capaz de dormir com o rancor debaixo da almofada. Sou terrível com inícios, mas pior com fins. 
É ridículo, tudo isto. Escolhi não te dar satisfações sobre a forma como decido reparar os danos que em mim causaste, mas continuo a não saber lidar contigo. Escrever-te fez parte do processo de cicatrização, suponho. Escondi-me nos escombros do que sobrou de nós. Alimentei-me dos teus olhares esporádicos, da atenção mínima que me davas entre intervalos de aventuras e tentei escrever sobre amor, tentei eternizar o que quer que tenhamos sido. 
Não precisava de ti para sobreviver, eu já existia antes de te provar os lábios. Mas precisava de ti para escrever, para me entender. Secas-me as metáforas, sabes. Sinto que já nada há a dizer-te. As minhas palavras são tão redundantes quando a ti dirigidas. Mas foi tudo tão bonito. Todo o sentido de posse subtil, de vingança dissimulada. 
Fomos grandes, gigantes. Não foi saudável, mas foi puro, foi real. Animal, até. Nunca nos vamos sentar e aproveitar um fim de tarde na companhia de um copo de vinho, embalados pela doce melodia das memórias. Não vamos falar um do outro aos nossos filhos um dia. Porque fomos proibidos, e a tentação custa o paraíso. Porque sou orgulhosa e narcisista no que toca a nós. Porque assim é melhor. Estamos melhor assim, não estamos? E porque o amor termina sempre em lágrimas e promessas quebradas, perdidas entre soluços e saudades, mata-nos. E eu mato-me aos poucos com ele. 
Mas por ti, já não.

31.1.14

00.38

Um facto sobre os opostos: atraem-se. Mas não combinam. Isto é física moderna, electromagnetismo. E amor. 
Gostar assim dói porque é esgotante e cru, e é bárbaro que imploremos e encontremos conforto nesse amor que não nos serve. Gostar assim faz-nos crescer nódulos no coração. Gostar assim é aceitar que há almas que foram feitas para correr com os lobos e que por isso não estão aqui a tempo inteiro, e que lhes chega amar aos bocados. 
Mas gostar de ti é tão diferente. De ti, gosta-se por inteiro. Gostar de ti é reconhecer que comecei a morrer desde o dia em que nasci, e quase acreditar que depois desta morte a que chamam vida, não existe só o frio do vazio e do esquecimento. Não acredito que exista um paraíso divino, mas se existir, há-de ser da cor dos teus olhos. Reconheço fé em mim, o supra-sumo da racionalização. Conferes-me o estatuto de crente em algo que não compreendo e que, de alguma forma, espero que seja amor. E faz-me bem, sabes. 

Não sei o que me fazes, mas faz-me bem.


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30.1.14

1.09

É tão caricato, isto do amor. Levo a vida a acreditar que o melhor odor que existe é o de fim de tarde numa terra pequenina, a um canto morno e rosado do Algarve em pleno Agosto. Um dia tu apareces, e eu descubro debaixo do céu da meia noite e dezoito, que não há cheiro como o da tua pele numa noite fria e célere de Janeiro.