12.2.14

22.38

Trago um furacão ao peito e nunca aprendi a silencia-lo. Acordo um dia e descubro que outro alguém habita os teus pensamentos e a tua cama. Dizem que o que não nos mata torna-nos mais fortes - como é errado acreditar que é sempre assim. O que não nos mata também nos mantém acordados às quatro da manhã e humedece-nos a vida, alimenta-nos os medos. Eu e tu fumámos o amor que nos ligava. Querer-te foi exaustivo. Escrevi-te poesia amarga, nociva. Releio-a quando te quero matar em mim. A noite acolhe a mágoa. Faz-lhe a cama com lençóis caros, mas não cheiram a novo: cheiram como teu corpo. E o que nos dói às quatro da manhã continua a doer às quatro da tarde, porque o tempo não existe, mas esta dor sim. O tempo inventá-mo-lo nós para medir o tamanho de uma dor. Mas há dores sem tamanho, e mundos tão maravilhosos perdidos em números primos que te prendem lá longe, e na minha falta de jeito para amar e deixar que me amem, e em garrafas de whiskey que te fizeram lembrar de mim à hora marcada quando eu escrevia para esquecer. Conta-me histórias. Fala-me de destruição. Somos mestres nessa arte que é destruir. Mas não me contes segredos que eu já não quero carregar comigo. Ocupei o vazio com o desinteresse aparente: não tenho mais espaço para segredos. Fecho os olhos. É esta a cor do medo? - pergunto. Perdi-me. Perdi-me em caminhos que nunca pisei e culpo a necessidade sufocante de ti que me corrompeu o corpo, em tempos. Quebrei costelas para criar espaço para ti, junto ao meu coração e guardei-te por cá enquanto pude, porque sempre acreditei que tínhamos potencial para ser algo maravilhoso. Seriamos outros. Seriamos tudo: o mundo caber-nos-ia nas mãos. Duas versões potencialmente melhoradas que a vida fermentou e preservou para nós apenas. Tu envergarias um azul mais límpido nesse olhar, tão diferente das tempestades que carregas agora, e eu traria um coração saudável, capaz. Traria flores ao peito em vez de furacões. Seriamos certos então, plenos. Não sei se foi amor. Se foi, foi bonito, mas diluiu-se. Já não temos dezasseis anos, já não nos questionamos sobre a vida: vivê-mo-la. Um dia de cada vez até que não haja mais dia nenhum para viver. As armas mais perigosas não têm gatilho: têm sangue nas veias e pensamentos tóxicos espelhados num olhar vazio. 
Tudo em ti cresce - dúvidas, medos, vícios, erros, desgostos. Roças-me os ossos partidos agora, e é uma dor tão humana. Demorei a aceitar, mas hoje sei:

não cabes mais em mim.



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(porque nunca te disse adeus: temos 16 anos outra vez e uma sabedoria docemente ignorante no olhar. 
não conhecemos o amor ainda, mas vamos conhecer um dia. eu, pelo menos, vou.)

8.2.14

A ti, mais uma vez, porque às vezes a chuva lá fora faz chover cá dentro:

Sou terrível com inícios. Queria pedir-te desculpa pelo Inverno das minhas palavras. Sou-te fria porque me roubaste o calor do corpo quando nos perdemos em jogos e ironias. Não me custa ver-te desistir de tentar. Eu desisti há muito tempo. Não te odeio e não te amo. Só não te suporto. Não te sei perdoar. Desculpa-me por isso também. Fizeste de mim alguém capaz de dormir com o rancor debaixo da almofada. Sou terrível com inícios, mas pior com fins. 
É ridículo, tudo isto. Escolhi não te dar satisfações sobre a forma como decido reparar os danos que em mim causaste, mas continuo a não saber lidar contigo. Escrever-te fez parte do processo de cicatrização, suponho. Escondi-me nos escombros do que sobrou de nós. Alimentei-me dos teus olhares esporádicos, da atenção mínima que me davas entre intervalos de aventuras e tentei escrever sobre amor, tentei eternizar o que quer que tenhamos sido. 
Não precisava de ti para sobreviver, eu já existia antes de te provar os lábios. Mas precisava de ti para escrever, para me entender. Secas-me as metáforas, sabes. Sinto que já nada há a dizer-te. As minhas palavras são tão redundantes quando a ti dirigidas. Mas foi tudo tão bonito. Todo o sentido de posse subtil, de vingança dissimulada. 
Fomos grandes, gigantes. Não foi saudável, mas foi puro, foi real. Animal, até. Nunca nos vamos sentar e aproveitar um fim de tarde na companhia de um copo de vinho, embalados pela doce melodia das memórias. Não vamos falar um do outro aos nossos filhos um dia. Porque fomos proibidos, e a tentação custa o paraíso. Porque sou orgulhosa e narcisista no que toca a nós. Porque assim é melhor. Estamos melhor assim, não estamos? E porque o amor termina sempre em lágrimas e promessas quebradas, perdidas entre soluços e saudades, mata-nos. E eu mato-me aos poucos com ele. 
Mas por ti, já não.

31.1.14

00.38

Um facto sobre os opostos: atraem-se. Mas não combinam. Isto é física moderna, electromagnetismo. E amor. 
Gostar assim dói porque é esgotante e cru, e é bárbaro que imploremos e encontremos conforto nesse amor que não nos serve. Gostar assim faz-nos crescer nódulos no coração. Gostar assim é aceitar que há almas que foram feitas para correr com os lobos e que por isso não estão aqui a tempo inteiro, e que lhes chega amar aos bocados. 
Mas gostar de ti é tão diferente. De ti, gosta-se por inteiro. Gostar de ti é reconhecer que comecei a morrer desde o dia em que nasci, e quase acreditar que depois desta morte a que chamam vida, não existe só o frio do vazio e do esquecimento. Não acredito que exista um paraíso divino, mas se existir, há-de ser da cor dos teus olhos. Reconheço fé em mim, o supra-sumo da racionalização. Conferes-me o estatuto de crente em algo que não compreendo e que, de alguma forma, espero que seja amor. E faz-me bem, sabes. 

Não sei o que me fazes, mas faz-me bem.


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